Foz inova e já “exporta” método de combate à dengue, zika e chikungunya

O Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Foz do Iguaçu mudou a estratégia de combate ao mosquito transmissor de dengue, zika e chikungunya - em vez de esperar que ele aja – ou seja, que contamine as pessoas - o CCZ está se adiantando e o ataca primeiro. Deu tão certo que a metodologia cruzou a fronteira e está sendo replicada em um projeto-piloto em Ciudad del Leste, no Paraguai, por meio de uma parceria viabilizada pelo Grupo de Trabalho para Integração das Ações de Saúde na Área de Influência da Itaipu (GT Itaipu-Saúde).

 

No final de junho, profissionais de saúde e de informática do município paraguaio foram capacitados pelo CCZ, que também emprestou 150 armadilhas para capturar os mosquitos, que foram instaladas no bairro San Juan, de Ciudad del Este. Em Foz do Iguaçu, existem mais de 3,5 mil armadilhas em toda a cidade – uma em cada quarteirão.

 

Essas armadilhas começaram a ser instaladas em Foz do Iguaçu em 2003, mas foi em janeiro deste ano, com a implantação do Laboratório de Biologia Molecular, que esse trabalho ganhou mais velocidade e precisão. Isso porque os mosquitos coletados passaram a ser enviados para esse laboratório que, em aproximadamente duas horas, faz um diagnóstico dos insetos.

 

O software está sendo desenvolvido pela superintendência de Informática da Itaipu Binacional em uma parceria viabilizada pelo GT-Saúde.

 

A gestora do GT-Saúde, Luciana Sartori, destaca que a ideia da criação do laboratório surgiu em uma reunião, a partir da necessidade de armazenar os mosquitos, que eram enviados para análise na Universidade Federal do Paraná (UFPR) – processo que costumava ser longo - e da falta de diagnóstico para zika e chikungunya no Paraná na época. “A demora para saber o que estava acontecendo era um dos fatores que contribuíam para ter uma epidemia”, ressalta Luciana.

 

O médico veterinário do CCZ, André Leandro, explica que, a partir de então, foi possível saber onde os vírus da dengue, zika e chinkungunya estão circulando, antes que as pessoas adoecessem. “Com isso eu consigo fazer a interrupção da transmissão do vírus sem que haja epidemia”, afirma.

 

Nas áreas onde foram identificados mosquitos contaminados, as equipes do CCZ organizaram ações para eliminá-los. “Com os resultados do laboratório, nós identificamos as áreas de risco e direcionamos as nossas equipes para poder fazer eliminação de criadouro, mobilização da população e aplicação de inseticida para eliminar o mosquito contaminado”.

 

O Centro faz busca ativa de casos, passando de casa em casa, encaminhando pessoas com sintomas para hospitais ou unidades de saúde. O médico veterinário do CCZ comenta que até 80% das pessoas contaminadas não possuem sintomas ou não procuram atendimento. Por isso, existem casos que  não são notificados. “Algumas ações do modelo tradicional acontecem a partir do caso notificado. Só que, quando uma pessoa aparece doente, para cada 100 pode haver até 80 que estão com o vírus, mas não têm sintomas. Então, a doença, muitas vezes, começa a ser transmitida de forma silenciosa”.


 

O método que está sendo desenvolvido no CCZ – chamado de “MÉTODO VIGEntEE©” – adota a lógica contrária. “Nós sabemos onde está o mosquito contaminado, então nós vamos lá e procuramos as possíveis pessoas contaminadas e encaminhamos às unidades de saúde”. A estratégia já surtiu efeito: foi interrompida a transmissão dos vírus em oito áreas de Foz do Iguaçu em que havia contaminação de mosquitos, como no Jardim Jupira, Morumbi e Três Bandeiras.

 

Esse método, nos próximos meses, vai ganhar um reforço para a tomada de decisão: está em fase de testes um programa de geoprocessamento, que vai reunir todas as informações coletadas pelas armadilhas espalhadas pela cidade. O software está sendo desenvolvido pela superintendência de Informática da Itaipu Binacional em uma parceria viabilizada pelo GT-Saúde.

 

ALÉM DA FRONTEIRA

 

Em Ciudad del Este, conforme a bióloga do Servicio Nacional de Erradicación del Paludismo (Senepa), Nidia Martinez, o controle da dengue, atualmente, é feito a partir do Levantamento Rápido do Índice de Infestação por Aedes aegypti (LIRAa), método usado em muitas cidades do Brasil que identifica o número de larvas do mosquito na localidade. Com esses dados, é planejada a vigilância do vetor e o controle químico direcionado aos lugares onde existem casos de dengue, zika ou chikungunya. Para a prevenção das doenças, as equipes do Paraguai também fazem visitas às casas para eliminar criadouros e fazem mobilizações das comunidades.

 

O supervisor do Senepa, Carlos Guido, conta que a instituição participa das reuniões mensais do GT-Saúde e foi ali que conheceram a metodologia desenvolvida no CCZ, que propôs a eles uma capacitação. Foi o GT-Saúde também, de acordo com ele, que viabilizou esses encontros e o início desse projeto-piloto. Em junho, 30 integrantes da equipe do Senepa receberam o treinamento, entre dirigentes, técnicos de informática e agentes de endemias.

 

 

O diagnóstico dos mosquitos coletados em Ciudad del Este também será feito no Laboratório de Biologia Molecular e as ações das equipes do Senepa passarão a ser baseadas nessa análise. A princípio, o projeto-piloto terá a duração entre seis meses e um ano. “Pretendemos avaliá-lo e, eventualmente, replicar em outras áreas de nosso país, dependendo das decisões de nossas autoridades”, afirma Guido.

 

Uma das armadilhas foi deixada na casa de Ana de Jesus Rios, 47 anos. Ela diz que sempre teve os cuidados para evitar o mosquito, mas que, há dois anos, quando foi contaminada pela doença e passou quase 15 dias de cama, percebeu o quanto realmente a prevenção é importante. “Tentei trabalhar e não aguentei”, conta. Ana afirma que, ainda que zele pela própria casa, se preocupa porque nem todos agem da mesma maneira. Ela acredita que o método que sendo está replicado em Ciudad del Leste vai contribuir com a redução dos casos da doença. “Vai ajudar a minimizar esse tipo de epidemia, que mata mais que muitas outras enfermidades”.

 

A princípio, o projeto-piloto terá a duração entre seis meses e um ano.